Haverá nas páginas da História da Igreja capítulos de conhecimento e leitura desaconselháveis? A mesma pergunta se pode fazer em relação ao Antigo Testamento, assim como se pode dar a mesma resposta. Toda a iniciação em Cristo e na Igreja deve ser progressiva, pedagógica, didascálica, isto é: didática. Mas deve visar a formação do adulto em Cristo, pela informação completa, sem reservas. Em certas fases da vida da Igreja, em que vigorou simultaneamente um ‘paternalismo’ e um ‘infantilismo’, compreende-se as reservas que então se fizeram. Compreende-se mal, mas compreende-se, pois na Igreja — como no Mundo — não se ‘faz’ unicamente história, também se ‘sofre’ história.
A evangelização, durante o primeiro milénio, tendo-se quase exclusivamente localizado entre povos e nações de fundo cultural indo-europeu [celtas, latinos, gregos, germânicos e eslavos], a organização da Igreja acabou por lhe herdar [‘sofrer’] a estrutura social tripartida: sacerdotes, guerreiros e plebe. O que deu, na Idade Média: clero, nobreza e povo. E, nos Tempos Modernos, por desenvolvimento e transferência: as classes, uma certa forma de castas. O povo agrupou os ‘servos’, súbditos, dirigidos que, como as crianças, eram objecto duma pastoral reservada ao cuidado do Cura de almas que, com peso e medida, ‘prudência’, os guiava durante a sua peregrinação neste Mundo. O nome de Leigos não era dado aos membros do Povo, nem às mulheres, mas aos detentores de algum, muito ou pouco, Poder Laico. Razão por que a informação do povo e, por consequência, a formação, nunca era completa, mas reservada desde a leitura da Escritura ao debate das questões teológicas. Tratava-se de não escandalizar, como se de crianças se tratasse. Os catecismos aprovados forneciam doutrina segura. O povo não precisava de mais, para a salvação das almas isso bastava.
A quem se escandalizasse com esta fase da vida da Igreja, seria preciso esclarecer que a Igreja não faz só história, a Igreja também sofre história. Mas o melhor da igreja não passou através destes ‘panos’? Passou certamente. Digam-no a multidão dos santos, ricos e pobres. Diga-o Catarina de Sena e diga-o Francisco de Assis.
Mas que a história dos Leigos não é muito famosa — depois que Constantino deu a paz à Igreja e depois que Carlos Magno entrou pela Igreja dentro com a sua herança bárbara —, isso é verdade. E é isso que dá à questão dos Leigos — de que o próximo Sínodo se vai ocupar — uma grande ambiguidade. Porque não parece que a porção laical da Igreja precise de definição. Quem parece precisar de definição é a sua porção ministerial, que tem a tentação — digamos que a melhor das tentações — de invadir o Corpo de Cristo e de substituir todos os outros membros, de modo a reduzi-los à mera passividade e receptividade. Está fora de questão a legitimidade apostólica e o poder apostólico transmitido por via ‘catedralícia’ daqueles que na Igreja são bispos da Igreja e para a Igreja. Está fora de questão o ministério e até uma ‘hierarquia’ de ministérios. Aquilo que está em questão é a identidade dos Leigos e a sua identificação batismal com o Cristo Jesus. Esta é que é a ‘vocação’ segundo o testemunho de todo o Novo Testamento.
Todas as fontes da nossa renovação estão no Batismo. Estamos na Quaresma e a nossa peregrinação às fontes batismais — no ano do Sínodo sobre o lugar dos Leigos na Igreja e no Mundo — tem de ter presente a hora [kairós] que passa e os passos a dar para a plena realização da nossa vocação de Cristãos.
Quem se aborrecer com o levantamento de tantas questões, não tem remédio, isto é: não tem outro remédio que não seja abrir os olhos e alargar o seu coração, pedindo ao Senhor um bom estômago, pois a fase da infantilidade, como a do paternalismo, passou definitivamente. Ai de quem não quer crescer! Nem sequer se parece com as crianças — que se caracterizam pela vontade de crescer —, com as quais Jesus exigiu que nos identificássemos para poder entrar no Reino de Deus.
Durante muito tempo — “naqueles primeiros dias” — se pensou e se disse que “um cristão é outro Cristo”. Que pena! Quase sem darmos por isso, lentamente, aquela verdade — a da identificação do cristão com o Cristo Jesus — passou-se para os padres: “Um padre é outro Cristo!”. Não é pena que os padres sejam outro Cristo. Oxalá o sejam! O que é pena é que para que o padre seja outro Cristo, seja preciso que os Leigos o deixem de ser. Sim, isso é que é pena. Mas muitas penas ainda havemos de carregar no nosso ‘devir’ histórico até sermos quem somos, até fazermos o que dizemos e sabermos o que fazemos, “para que o Mundo veja e se converta”. Há uma história que se faz e há uma história que se sofre. “O discípulo não é mais do que o Mestre”.


Leonel Oliveira
Actos e Actas n.º 62 | Voz Portucalense, 19 de março de 1987
Escultura: ‘Majestat Batlló’ [séc. XII]